sábado, 27 de dezembro de 2008

Ensaio sobre a cegueira - Saramago

Ontem assisti ao filme que, confesso a vocês, esperava muito ansiosa já há algum tempo. Sim, também porque foi baseado no livro de um escritor que eu gosto muito. A curiosidade de saber como a linguagem cinematográfica reproduziria as sutililezas da idéia que o livro aborda, era bastante grande. A consciência das diferenças, visto que linguagens distintas têm meios diversos de suscitar percepções no leitor, impedia-me de grandes expectativas de comparações com o livro. Eu até acredito que é extremamente possível assistir a um filme como esse, ou qualquer outro baseado em um livro, sem a leitura do mesmo - não que não seja interessante. Na verdade é provável que muitos acreditem nessa possibilidade, porém a grande maioria acredita que ler o livro é a principal exigência. E acreditem: não é! Também não pense, caro leitor, que assistir a filme, substitua a leitura de uma obra literário. Isso nunca! Ambos são de extrema importância para ajudar na construção de um olhar desautomatizador e crítico. Porém, as pessoas querem ter uma imagem já formada na cabeça, para daí apenas ver se o filme confere ou não com o seu ‘achar’.
Bem, o fato é que fiel ao livro ou não, este é um filme que eu recomendo a todos. De uma densidade bastante grande, é verdade. Houve cenas em que fiquei tão apreensiva, que a vontade que eu tinha era de levantar da poltrona e sair correndo. Cenas fortes, angustiantes; é possível que a gente sinta na pele a aflição daquela cegueira branca que atingiu quase todos no filme. Exatamente!, uma cegueira branca e luminosa que embaça por completo o ver das pessoas. Eis a primeira grande sacada de Saramago, mantida de uma bela forma por Meirelles. Depois de assistir ao filme, fiquei entorpecida pelo pensamento contraditório das cores preto e branco. A primeira é a ausência de todas as cores - a cegueira comum; a segunda é a união de todas elas. Seria capaz de, o excesso de ‘cor’, cegar?
A fotografia também foi algo bastante instigante. Teve uma imagem que ainda está muito fresca na minha memória: uma mão com um fundo branco de um intenso brilho. Foram lindas, também, a imagem do café fervendo na cafeteira, e depois sendo, borbulhante, arremessado na chícara. Essas cenas, dentro do contexto do filme, enriqueceram de uma forma intensa, eu diria, o que acontecia naquele momento; eu gostei muito. Repetindo, o Meirelles foi formidável ao representar aquela luminosidade que descreveram os personagens, e que, segundo um deles, parecia um “nadar no leite”. A legenda, em alguns mometos, é preta por conta do branco brilho que toma conta da tela. E que nos diz tanto.
Acho muito importante que vejamos o filme tentando não nos agarrar apenas no que nos mostram as imagens. Talvez esse seja o grande motivo de muitos não terem conseguido levar adiante aquele contemplar. Talvez o mais importante seja a capacidade, do leitor, de captar aquilo que não nos foi mostrado - assim como ler o que está entre as linhas de um livro. Somente assim é possível sentir a esféra poética do filme, e perceber a grandiosidade das pequenas coisas; principalmente as representadas pelas atitudes da única que permaneceu com visão.
É esse apego ao palpável; ao material, talvez, que levou a humanidade àquela cegueira em massa; a essa automatização, parece-me, eterna. Uma cegueira a ponto de permitir a dominação de cegos por outros cegos. Meu namorado fez uma ligação, a partir dessa observação que fiz, com a pintura que ilustra o post, que foi por demais interessante. Como podem ver, há, nessa pintura, um cego puxando outros numa fila indiana. Não a conhecia. O mais curioso é que o filme mostra, de um lado, vários cegos sendo ‘puxados’ por um outro - que se proclama rei -, e de outro outros tantos sendo direcionados pela única visão.
É muito curioso também, a meu ver, fazer uma associação dessa cegueira, com a já antes proclamada pelos cristãos e a pintura acima. Talvez exista de fato uma intertextualidade entre o Bruegel e a fábula católica, mas a minha ignorância não permite que eu afirme com plena certeza. Lembro-me, vagamente, da época em que eu cheguei a frenqüentar a igreja; eles diziam que a principal dádiva do ser humano é enxergar com o coração - uma fala, que orna a falácia cristã, até bonita, e que hoje parece ão existir. A parábola a que me referi, está no Evangelho de Matheus, com as seguintes palavras: “Deixai-os; são guias cegos; ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão no barranco.” [Gostaria de saber sobre os pormenores para poder desenvolver melhor essa associação.[E que fique claro: isso não é uma apologia aos cristãos; apenas uma possibilidade de leitura]].
Talvez o grande X foi como essa cegueira cegou ainda mais alguns; e como fez com que outros começassem a enxergar de verdade; a sentir a vida de uma outra maneira. Ver com outros olhos - com o terceiro, talvez, como disse Hermeto Pascoal, no documentário “A janela da alma” que, inclusive, o próprio Saramago participa. A cegueira, vista por um outro ângulo, aproxima as pessoas. Faz com que elas se toquem; com que sintam o calor umas das outras, ou o frescor da brisa, e desse modo desperta algo comum dormente nos seres humanos: o sentimento pelo impalpável; pelo invisível a olho nu. E desse modo ela devolve o brilho que a vida deveria nunca perder.

Um comentário:

André L. Soares disse...

Também vi o filme. Adorei. Já o esperava ver há meses. Gostei muito da leitura que você fez do filme. Eu vi de outro modo. Deve ser um pouco de tudo que sentimos e muito mais. Ainda preciso pensar bastante sobre esse filme. Talvez até ver mais vezes.

Vi a metáfora do mundo todo cego, não exatamente do ponto de vista oftalmológico; mas sim social. O mundo que não vê o 'ser', pois só vê o 'ter'. Nesse filme, o ser humano é obrigado a descobrir o outro. O ser sobrepõe-se ao ter. As necessidades básicas sobrepõem-se a todas as demais necessidades (aquelas que ficam nas outras camadas da 'pirâmide de Maslow').

Seu blog é, acima de tudo, muito bem escrito. Parabéns!

Um abraço!