sábado, 23 de maio de 2009

Cora Coralina, a Aninha da Ponte da Lapa.

É extraordinária a maneira como observa, assimila o tempo e a geografia desse perdido paraíso dos trópicos, reofertados a nós com sua autenticidade inaugural. Os tons elegíacos e odinos alteram-se nos instrumentos de Cora Coralina, pois vivenciamos a presença não apenas de uma restauradora de crepúsculos, mas, também, de uma animadora, de uma celebradora de adventos e de nova forma de convívio... A poeta saiu do seu casulo, eleva-se com a polifonia de construção de uma cidade e entoa seu hino de certeza.
É impressionante como Cora Coralina se revela e se identifica como uma mulher apenas, pequena e frágil, em pleno cenário poético de Vila Boa de Goiás, debruçada no peitoril de sua janela enquanto espera o ponto do doce.
Ouçamo-la:
Goiás, minha cidade. Eu sou aquela amorosa de tuas ruas estreitas, curtas, indecisas, entrando, saindo uma das outras. Eu sou aquela menina feia da ponte da Lapa. Eu sou Aninha. Eu sou aquela mulher que ficou velha esquecida nos teus becos tristes. Cantando estórias. Cantando teu futuro. Eu vivo nos teus muros verdes de avencas onde se debruça um amigo jasmineiro cheiroso na ruinha pobre e suja.
Cora Coralina é realmente alguém que viveu em estado de graça com a poesia e com a vida. Escreveu aos oitenta anos sem parar, quase às escondidas, saindo do anonimato apenas vinte anos antes de morrer, porque, no início do século passado, somente publicava seus trabalhos nos jornais de sua província, os quais
escandalizavam a quase toda gente pela malicia e irreverência que continham, além da ferrenha censura que recebia do marido, o qual não aceitava que sua mulher, com quem se casara de papel passado, revelasse a todos da cidade, os seus intimismos mais particulares.
Cora Coralina publicou: Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais; Meu Livro de Cordel e Vintém de Cobre.
Dizia: "O presente é incomparavelmente melhor que o passado, assim como também o é o futuro em relação ao presente".
Os velhos não gostam de mim. Eu também não gosto deles -, e por isso quem me lê e meu ouve são os jovens. Mas eles sempre entram em minha casa com uma grande
carga negativa na cabeça.
Ouçamo-la diante da beleza formal que exercita:
Eu sou estas casas encostadas cochichando uma com as outras. Eu sou a ramada dessas árvores sem nome e sem valia sem flores e sem frutos de que gostam a gente cansada e os pássaros vadios. Eu sou o caule dessas trepadeiras sem classe, nascidas nas frinchas das pedras bravias, renitentes, indomáveis, cortadas, maltratadas, pisadas e renascendo. Eu sou a dureza desses morros revestidos, enflorados, lacerados. Queimados pelo fogo, pastados, calcinados e renascidos. Minha vida, meus sentidos, minha estética, todas as vibrações de minha
sensibilidade de mulher têm aqui suas raízes. Eu sou a menina feia da ponte da Lapa. Eu sou Aninha.

Quanta delicadeza na descrição de seu perfil, poética em todos os sentidos!
F E N O M E N A L !!!!!

3 comentários:

José Humberto dos Anjos disse...

Gostei muito de sua visão sobre Cora. Sou pesquisador em Cora Coralina e vejo o quanto as pessoas de Goiás precisam conhecê-la mais e mais. Parabéns!

Judô e Poesia disse...

Oi Jakeline,

Vivenciei hoje o grande prazer de passar pelo seu blog, o texto sobre Cora Coralina é delicioso, e, permita-me dizer, você também parece ser uma personagem rica de conteúdos e significados. Foi muto bom estar aqui. Beijos. Boa noite. Domingos.

Judô e Poesia disse...

"muito"