domingo, 31 de maio de 2009

A HORA DOS RUMINANTES DE JOSÉ J. VEIGA

INTRODUÇÃO:

A narrativa trata principalmente da passividade com que uma população deixa tomar por uma invasão absurda de seu território, sem ter espaço forças para organizar uma reação. O caráter alegórico dessa narrativa esgota qualquer eixo interpretativo, é aberto e se dispõe ao leitor em possibilidades de significação.
A história e focada na vila de Manarairema, lugarejo interiorano, cujas figuras centrais são o marceneiro, o ferreiro, o carroceiro e o dono da venda Amâncio. Esta história extraordinária dessa comunidade subitamente invadida primeiro por forasteiros hostis, depois por uma numerosa matilha e finalmente por uma enorme manada de bois.
Geograficamente, o espaço é dividido entre “lá” (tapera) e “cá” (vila) está relação se estabelece até o final da trama.

Veiga revela em uma entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo (Caderno 2, 04-10-1997) que o livro “A Hora dos Ruminantes” teria sido escrito alguns anos antes da eclosão do movimento militar, e seu intuito fora fazer uma crítica ao autoritarismo em geral, baseado sobretudo nas lembranças do que sofrera pessoalmente durante o Estado Novo. Afirma que fez e refez o livro “uma infinidade de vezes” e por isso o romance só foi publicado em 1966.


CONCLUSÃO:

“Veiga constrói “A Hora dos Ruminantes” ao modo de uma fábula, mas aos poucos o substrato alegórico vai assumindo contornos de sátira política.(...) A situação, no romance, torna-se opressiva quando um dia surgem centenas, milhares de cachorros na aldeia, intrometem-se em tudo, farejando, não deixando ninguém em paz. Mais tarde, há o derrame dos bois que diversamente dos cachorros, não aparecem todos de uma só vez. (...) A cidadezinha sufoca diante dos dejetos dos animais, está prestes a desaparecer no mapa. E então, certa manhã, como que, por milagre, os ruminantes desaparecem, sem qualquer explicação.(...) Digamos que se trata de uma alegoria bem evidente para os que passamos pelo período da ditadura militar.” Alegoria e Antiutopia em José J. Veiga por Fernando Py.
O livro “A Hora dos Ruminantes” conta à subjugação de uma pacata cidade e seus habitantes, que sem explicação, vêem-se incorporados a uma nova realidade que desvirtua seus hábitos, impostas por sistemas estabelecidos independente de suas vontades, desequilibrando a ordem estabelecida e precipitando num clima cada vez mais surreal, dando cabo a angústia, tensão e medo que os levam a situações vivenciais insuportáveis.
Desta forma, José J. Veiga narra um romance que se associa ao realismo fantástico que extrapola as fronteiras do verismo para atingir uma supra-realidade, tecida de fantasia e de representações concretas do imaginário. Tornando-se assim uma poderosa alegoria do totalitarismo que pouco refletia a realidade brasileira.

BIBLIOGRAFIA DO AUTOR:

José J. Veiga(José Jacinto Pereira Veiga) nasceu em 2 de fevereiro de 1915 em uma propriedade entre Corumbá de Goiás e Pirinópolis(GO) e faleceu no Rio de Janeiro(RJ), 19 de setembro de 1999. Romancista e contista. Fez os primeiros estudos no Liceu de Goiás. Transferiu-se, aos 20 anos, para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como propagandista de laboratório e locutor da Rádio Guanabara. Formou-se pela Faculdade Nacional de Direito do Rio, em 1943. Foi jornalista de O Globo, Tribuna da Impressa, na BBC de Londres e tradutor e redator do Reader’s Digest nos Estados Unidos. Sua temática parte do corriqueiro até chegar ao insólito, ao irreal e surreal, cuja linguagem é marcada pelo despojamento e pelo dialogo objetivo e dinâmico.
A narrativa, contudo, é sempre conduzida num tom propositada e decididamente interiorano, e muitas vezes com uma mensagem edificante e uma crítica social implícita no contexto.
Principais obras:
- Os cavalinhos Platiplanto, 1959
- A hora dos ruminantes, 1966
- Sombras de reis barbudos, 1972
- Torvelinho dia e noite, 1985
- A casca da serpente, 1989
- O trono no morro, 1991
- O risonho cavalo do príncipe, 1992
- J.J. Veiga: os melhores contos, 1994
- O relógio Belisário, 1995
- Objetos turbulentos, 1997

“Eu me vigio muito para não fazer aquilo que em linguagem popular se diz “encher lingüiça”. Eu devasto o texto. Tiro o bagaço. Deixar apenas o que tem peso, a essência.” José J. Veiga

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