quarta-feira, 27 de maio de 2009

Os Miseráveis de Victor Hugo

Considerações sobre a obra Os Miseravéis - Victor Hugo

Les Misérables (Os miseráveis) é uma das principais obras escritas pelo francês Victor Hugo no século XIX, também autor de “Os Trabalhadores do Mar” e “O Corcunda de Notre Dame” entre outras obras, que narra a situação política e social francesa no período da Insurreição Democrática em 5 de junho de 1832 através da história de Jean Valjean.

No tribunal de Faverolles, França, Jean Valjean é condenado a passar 10 anos nas galés, por roubar comida. Após cumprir a pena é posto em liberdade condicional, sendo que se não se apresentar regularmente descumprirá os termos da condicional e ficará preso por toda a vida. Logo Valjean se sente marginalizado por todos que encontra, pois carrega o “passaporte amarelo” que o identifica como um ex-presidiário. Valjean só é ajudado pelo bispo Bienvenu , mas em vez de se mostrar grato ele rouba toda a prataria do bispo. Logo é preso, pois as peças de prata tinham o brasão do bispo. Quando Valjean é levado pelos soldados até a presença de Bienvenu, este diz que deu a prataria para Valjean e ainda diz que ele esqueceu de levar os castiçais. Esta demonstração de bondade faz Valjean voltar a crer nas pessoas. Após alguns anos, Valjean torna-se um próspero empresário, o prefeito da cidade e um homem respeitado pela sua bondade, chegando até mesmo a adotar Cosette . Ele é realmente um pai, em parte para se redimir de ter se expressado mal e ter deixado Fantine , a mãe de Cosette, ter sido despedida da sua fábrica, que ficou em razão disto com a saúde muito abalada e ter perdido por anos a guarda da filha. Um dia Valjean vê um aldeão preso embaixo de uma carroça pesada, e com uma força que parece ser sobre-humana, a levanta usando suas costas, o que permite que homem seja salvo. O chefe de polícia do local, Javert , que cumpre a lei ao pé da letra sem a menor clemência, assiste este feito, que o faz lembrar que um prisioneiro de galé que ele encontrou uma vez. Ele investiga o passado do prefeito e o identifica como Jean Valjean, um criminoso procurado pois nunca se apresentou para cumprir os termos da condicional. Porém fica confuso quando um prisioneiro retardado que será julgado afirma ser Jean Valjean. Quando o julgamento estava em andamento alguns prisioneiros afirmam que ele é Valjean, mas o verdadeiro Jean Valjean, que estava no tribunal, diz que o acusado é inocente, pois ele é Jean. Isto fará Javert iniciar uma caçada sem tréguas para prender Valjean, pois a lei tem de ser cumprida.

Fonte: http://kavorka.wordpress.com/os-miseraveis-victor-hugo/

Trecho do livro Os Miseráveis, de Victor Hugo

Prefácio - Victor Hugo

Enquanto, por efeito de leis e costumes, houver proscrição social, forçando a existência, em plena civilização, de verdadeiros infernos, e desvirtuando, por humana fatalidade,um destino por natureza divino; enquanto os três problemas do século - a degradação do homem pelo proletariado, a prostituição da mulher pela fome, e a atrofia da criança pela ignorância - não forem resolvidos; enquanto houver lugares onde seja possível a asfixia social; em outras palavras, e de um ponto de vista mais amplo ainda, enquanto sobre a terra houver ignorância e miséria, livros como este não serão inúteis.

Hauteville-House, 1862.1

I Charles Myriel

Em 1815, era Bispo de Digne 3 o Sr. Charles-François-Bienvenu Myriel, um velho com mais ou menos 75 anos de idade, que aí residia desde 1806.
Embora esse detalhe não afete de maneira nenhuma a essência de nossa narração, não é, contudo, inútil, ainda que não fosse senão para sermos exatos em tudo, reproduzir aqui os comentários sobre sua pessoa quando chegou à diocese. Verdade ou mentira, muitas vezes o que se diz dos homens tem tanta importância em sua vida como o que estes realmente fazem. O Sr. Myriel era filho de um Conselheiro do Parlamento de Aix; aristocracia parlamentar. Contava-se que seu pai, querendo-o como herdeiro do cargo, casou-o muito cedo, com dezoito ou vinte anos, seguindo uso muito comum entre famílias parlamentares. Charles Myriel, apesar do casamento, deu muito que falar. Era atraente, embora de pequena estatura, elegante, gracioso, espirituoso; toda a primeira parte de sua vida foi gasta em galantarias e mundanidades.
Veio a Revolução, os acontecimentos se precipitaram, as famílias parlamentares, dizimadas, procuradas, cercadas, dispersaram-se. Charles Myriel, logo nos primeiros dias da Revolução, fugiu para a Itália. Aí sua esposa faleceu, vítima de afecção pulmonar, de que há tempos sofria. Não tinha filhos. Que se passou, então, na vida de Charles Myriel? Talvez a destruição da antiga sociedade francesa, a queda de sua própria família, os trágicos espetáculos de 1793, mais aterradores ainda para os emigrados, que os viam aumentados pela distância e pelo medo, tivessem feito nascer nele idéias de renúncia e solidão. Terá sido ele, em meio às distrações e amizades que ocupavam sua vida, subitamente vitimado por um desses golpes misteriosos e terríveis, que, às vezes, atingindo o coração, transtornam o homem que as catástrofes públicas, tirando-lhes família e fortuna, não conseguiriam abalar? Ninguém o poderia afirmar com segurança; sabe-se apenas que, ao voltar da Itália, ele era Padre.
Em 1804, Myriel era Vigário em Brignolles. Já idoso, vivia em profunda solidão.
Pela época da coroação, um pequeno problema de sua paróquia o levou a Paris. Entre outras pessoas influentes, visitou o Cardeal Fesch, para defender interesses de seus paroquianos.4 Numa ocasião em que o Imperador fora ao palácio de seu tio, o digno Sacerdote, que esperava na antecâmara, achava-se no caminho por onde Sua Majestade devia passar. Napoleão, sentido-se observado com certa curiosidade, voltou-se e disse bruscamente:
- Quem é esse homem que está me olhando?
- Sire - disse o Sr. Myriel -, vós vedes um pobre homem; eu, porém, contemplo um grande homem. Ambos temos de que aproveitar.
O Imperador, na mesma noite, pediu ao Cardeal o nome daquele Padre, e, algum tempo depois o Sr. Myriel foi surpreendido pela sua nomeação para a diocese de Digne.
Que havia de real, enfim, nas histórias que se contavam sobre a primeira parte da vida do Sr. Myriel? Ninguém o poderia dizer. Pouca gente havia conhecido sua família antes da Revolução.
O Sr. Myriel devia ter a sorte de todo o recém-chegado numa cidade pequena, onde há muitas bocas que falam e poucas cabeças que pensam; isso embora fosse ele Bispo, e justamente porque era Bispo. Enfim, os boatos em torno de sua pessoa não passavam de boatos, cochichos, diz-que-disses, palavrórios.
Fosse quem fosse, afinal, depois de nove anos de episcopado e residência em Digne, todas essas invenções, objetos das conversas usuais, que ocuparam no princípio o povinho das pequenas cidades, foram completamente esquecidas. Ninguém ousaria repeti-las ou relembrá-las.
O Sr. Myriel chegou a Digne acompanhado da Srta. Baptistine, sua irmã, dez anos mais moça que ele, ainda solteira.
Tinham uma única criada, da mesma idade que a Srta. Baptistine, chamada Magloire que, depois de ser a criada do Sr. Vigário, tinha agora um duplo título: camareira de Srta. Baptistine e despenseira do Sr. Bispo.
A Srta. Baptistine era alta, pálida, delicada, agradável; era realmente o que indica a palavra “respeitável”, pois me parece que uma mulher para se tornar venerável precisa ser mãe. Nunca foi bonita; toda a sua vida, que não foi senão uma seqüência de boas obras, envolveu-a numa espécie de brancura, de claridade, e, com os anos, ganhou o que poderíamos chamar de beleza da bondade. O que era magreza em sua juventude tornou-se transparência, diafaneidade que deixava entrever um anjo. Era mais que uma virgem, era uma alma. Parecia feita de sombras: o mínimo de corpo para que ali houvesse um sexo; um pouco de matéria envolvendo uma luz; grandes olhos sempre modestos; um pretexto, enfim, para que uma alma permanecesse na terra.
Mme. Magloire era uma velhinha pálida, gorda, atarefada, e sempre ofegante, por causa de sua contínua atividade e, ultimamente, também pela asma que a afligia.
Em sua chegada, o Sr. Myriel foi acomodado no Palácio Episcopal, com todas as honras exigidas pelos decretos imperiais, que punham a dignidade episcopal logo abaixo da de Marechal de Campo. Visitaram-no o Maire 5 e o Presidente, e ele, de sua parte, levou seus cumprimentos ao General e ao Prefeito.
Terminada a recepção, a cidade esperava sua atividade episcopal.

II O sr. Myriel torna-se Dom Bienvenu

O Palácio Episcopal de Digne era contíguo ao hospital; vasta e bela mansão construída em pedra nos começos do século passado, por D. Henri Puget, Doutor em Teologia pela Faculdade de Paris, Vigário de Simore, Bispo de Digne em 1712. Era uma verdadeira residência senhorial. Tudo ali era grandioso: os aposentos do Bispo, os salões, os quartos, o pátio principal muito espaçoso, rodeado de pórticos com arcadas, seguindo antiga moda florentina, e jardins com árvores magníficas. Na sala de jantar, longa e soberba ao rés-do-chão, abrindo-se para os jardins, D. Henri Puget ofereceu, em 29 de julho de 1714, um jantar de cerimônia aos Srs. Charles Bržlart de Genlis, Arcebispo-Príncipe de Embrun; a Antoine de Mesgrigny, Capuchinho, Bispo de Grasse; a Phillippe de Vendôme, Grão-Prior de França; ao Abade de Saint-Honoré de Lérins, François de Bertan de Grillon, Bispo-Barão de Vence; a César de Sabran de Forcalquier, Bispo-Senhor de Gland�ve, e a Jean Soanen, Padre do Oratório, Pregador Ordinário do Rei, Bispo-Senhor de Senez. Os retratos desses sete personagens venerandos decoravam a sala, e essa data memorável, 29 de julho de 1714, estava gravada em letras de ouro sobre uma mesa de mármore branco.
O hospital era uma casa acanhada e baixa; um único andar com um pequeno jardim.
Três dias depois de sua chegada, o Bispo quis conhecer suas instalações. Terminada a visita, pediu ao Diretor que fosse até sua residência.
- Senhor Diretor - disse-lhe -, quantos doentes tem atualmente?
- Vinte e seis, Excelência.
- Justamente os que eu contei - disse o Bispo.
- As camas - continuou o Diretor -, estão muito apertadas.
- Já o tinha notado.
- As salas são quartos comuns e o ar não se renova facilmente.
- É justamente o que me parece.
- Além disso, quando há um pouco de sol, o jardim é muito pequeno para os convalescentes.
- Já havia reparado nisso.
- Nas epidemias, este ano foi o tifo, há dois anos foi a febre miliar, às vezes com cem doentes, não sabemos o que fazer.
- E não podia ser de outra forma.
- Que quer, Excelência? - disse o Diretor - é preciso resignar-se.
Esse diálogo se deu na sala de jantar, a galeria, ao rés-do-chão.
O Bispo calou-se por um momento; depois, voltando-se rapidamente para o Diretor do hospital, lhe disse:
- Quantos leitos, acha o senhor, poderiam caber nesta sala?
- Na sala de jantar de V. Exa.? - exclamou espantado o Diretor.
O Bispo percorria a sala com os olhos; parecia fazer cálculos e tomar medidas.
- “Nesta sala poderiam ficar vinte camas!”, - disse consigo mesmo; depois, elevando a voz: - Olhe, Senhor Diretor; aqui há, evidentemente, um grande erro. Vocês são vinte e seis pessoas mal acomodadas em cinco ou seis quartos pequenos. Nós somos três, e há lugar para sessenta. Repito, aqui há um erro: vocês estão no meu lugar e eu no de vocês. Dêem-me a minha casa; a de vocês é esta.
No dia seguinte, os vinte e seis doentes pobres estavam acomodados no Palácio Episcopal e o Bispo no hospital.
Charles Myriel não tinha fortuna, pois sua família perdera tudo durante a Revolução. Sua irmã recebia uma pensão vitalícia de quinhentos francos, que bastava para seus gastos pessoais. Ele, por sua vez, recebia do Estado, como Bispo, quinze mil francos. No mesmo dia em que se mudou para o edifício do hospital, determinou que essa quantia, de uma vez por todas, fosse empregada da seguinte maneira. Transcrevemos aqui uma anotação feita por ele mesmo.
orçamento das despesas de minha casa

Para o seminário menor 1.500 francos
Congregação das Missões 100 francos
Para os lazaristas de Montdidier 100 francos
Seminário das Missões Estrangeiras de Paris 200 francos
Congregação do Espírito Santo 150 francos
Fundações religiosas da Terra Santa 100 francos
Sociedades de Caridade Maternal 300 francos
Para a de Arles, mais 50 francos
Obras para a melhoria das prisões 400 francos
Obras para socorro e libertação de prisioneiros 500 francos
Para a libertação dos pais de família
presos por dívidas 1.000 francos
Abono ao ordenado dos professores pobres da diocese 2.000 francos
Congregação de senhoras de Digne, de Manosque e de Sisteron, para educação gratuita de moças pobres 1.500 francos
Para os pobres 6.000 francos
Despesa pessoal 1.000 francos
total 15.000 francos

Durante todo o tempo em que foi Bispo de Digne o Sr. Myriel não mudou em nada essas disposições. Chamava a isto, ter regularizado as despesas da casa.
Essa ordem foi aceita com absoluta submissão por Baptistine. Para ela, o Bispo de Digne era, ao mesmo tempo, seu irmão e seu Bispo, seu amigo e seu superior eclesiástico. Amava-o e venerava-o sinceramente. Se ele falava, ouvia cabisbaixa; se trabalhava, ajudava-o. Somente a criada, Mme. Magloire, reclamava um pouco. O Bispo, como vimos, não reservou para si mais que mil francos, que, juntos à pensão da Srta. Baptistine, somaram mil e quinhentos francos por ano. Com essa quantia viviam as duas senhoras e o velho Sacerdote.
Quando um Cura da aldeia ia a Digne, sempre achava um jeito de o hospedar, graças à severa economia de Mme. Magloire e à inteligente administração de Srta. Baptistine.
Um dia, já estava em Digne havia mais ou menos três meses, o Bispo disse:
- Com tudo isto, estou bem arrumado!
- É isso mesmo! - exclamou Mme. Magloire - o senhor nem ao menos reclamou a verba para as despesas de transporte na cidade e nas viagens pela diocese. Esse era o costume com os bispos de antigamente.
- Isso mesmo! - disse o Bispo - a senhora tem razão, Mme. Magloire - e fez a reclamação.
Algum tempo depois, o Conselho Geral, considerando o pedido, votou-lhe uma soma anual de três mil francos, como verba concedida ao Sr. Bispo para despesas de transporte nas viagens pastorais.
A burguesia logo reclamou, e na mesma ocasião, um Senador do Império, membro do Conselho dos Quinhentos, favorável ao brumário e agraciado com magnífica senatoria perto de Digne, escreveu furioso ao Ministro dos Cultos, o Sr. Bigot de Préameneu, um bilhete confidencial, de onde extraímos estas linhas autênticas:6
Despesas de transportes! Para quê, numa cidade que não tem quatro mil habitantes? Despesas de viagens? Para que essas viagens? Além disso, como se pode andar de carruagem nessa região montanhosa? Não há estradas. Só se pode andar a cavalo. A ponte de Durance em Château-Arnoux só agüenta carros de boi. Esses padres são todos assim, gananciosos e avarentos. Esse, quando chegou, portou-se como um bom apóstolo de Cristo. Agora, está como os outros; precisa de coches e carruagens. Precisa de luxo como os bispos de antigamente. Essa padralhada! Sr. Conde, as coisas só andarão bem quando o Imperador nos entregar essa turma. Abaixo o Papa! (Roma complicava os problemas). Quanto a mim, eu sou de César somente… Etc. etc.
Em compensação, isso alegrou muito Mme. Magloire. - Bom - disse ela à Srta. Baptistine -, o Senhor Bispo começou pelos outros, mas felizmente acabou cuidando de si. Todas as suas esmolas já estão marcadas. Enfim, temos três mil francos para nós.
Na mesma noite, o Bispo mandou à irmã um bilhete nestes termos:
despesas de viagens
Para dar caldo de carne aos doentes do hospital 1.500 francos
Para a Sociedade de Caridade Maternal de Aix 250 francos
Para a Sociedade de Caridade Maternal de Draguignan 250 francos
Para as crianças abandonadas 500 francos
Para os órfãos 500 francos
total 3.000 francos
Esse era o orçamento do Sr. Myriel.
Quanto aos proventos da Diocese, banhos, dispensas, batizados, sermões, bênçãos de igrejas e capelas, casamentos etc., era tão diligente em cobrar dos ricos como generoso em dar aos pobres.
Passado algum tempo, começaram a chegar donativos em dinheiro. Abastados e necessitados batiam à porta do Sr. Myriel, uns procurando a esmola que outros tinham trazido. Já era tesoureiro de todas as obras de beneficência, e caixa para socorro de todas as necessidades. Quantias consideráveis passavam pelas suas mãos; mas nada fazia com que mudasse o mínimo em seu estilo de vida ou acrescentasse qualquer coisa de supérfluo ao absolutamente necessário.
Longe disso. Como a miséria nas classes baixas é sempre maior que o espírito de fraternidade das classes altas, tudo era distribuído antes mesmo de ser recebido; era como água em terra seca: ele gostava de receber dinheiro, mas estava sempre precisando de mais. Privava-se, então, até do pouco que possuía.
Como é costume que os bispos aponham seu nome de batismo no começo de suas ordens e cartas pastorais, a gente humilde do lugar escolheu, como por afetuoso instinto, entre seus nomes e sobrenomes, o mais significativo: chamavam-no de Dom Bienvenu. Daqui por diante, chamá-lo-emos assim, mesmo porque isso lhe agradava. - Gosto deste nome - dizia -, Bienvenu tira a pomposidade do Dom.
Não temos a pretensão de que esse retrato seja verdadeiro: dizemos apenas que é parecido.

Fonte: http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT456982-1655-1,00.html

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