sexta-feira, 19 de junho de 2009

Tecitura de Areia*


Como quem não quer nada, tempestades de areia surgem na esquina. Melhor dizendo, elas compõem a esquina bem como o quarteirão inteiro. Aqueles paralelepípedos por sobre os quais uma bicicleta evolui guiada por Dolores e sua mecha de cabelo ocultando o olho esquerdo. Tudo areia, não se iluda. Uma suposta sensualidade revelada por um vestido transparente. Enquanto isso, um menino vende balas caramelizadas no fim da rua, observando o relógio da igreja matriz. Dolores tem um olhar perdido no tempo. Nada de sorriso ou choro, mas as lembranças... Ah, as lembranças compostas de grãos de areia. A sua mãe se despedindo para entrar de olhos abertos na morte deixando para trás pequenos objetos, poucos vestidos, uma imagem da Virgem de Fátima e a certeza da saudade dolorida nos corações de quem permaneceu na vida em curso. Alguém lança um farol altíssimo no rosto de Dolores que não teme mais nada e foge de lápis, caneta ou caderno para não dar continuidade a um diário sofrível. O relato do primeiro amor perdido, algo que para o mundo não passa de registro inútil que nada acrescenta a quem lê. Aquele tempo em que voltava para casa com as amigas tropeçando pelas calçadas, altas de mais, rindo histéricas na madrugada. Quem disse que viver não merece uns drinques seguidos de oscilações? Tudo areia. Os melodramas diuturnos. Seu pai a conferir o caixa de uma padaria que vendia sonhos açucarados.Todos aqueles filmes de terror. O próprio terror na personalidade daquele "caso" de uma noite que a seviciou. O fato de ter assistido ao filme Magnólia umas dez vezes sem conseguir explicar, de fato, o que a seduzia. Depois se enrolava num edredon e se encolhia no canto do quarto em noites tempestivas e se perguntava por que desejava tanto entrar no mar para nunca mais voltar. O mar. O mar. Seus olhos marejados. Bicicleta. Farol do carro. Carro.Menino. Bala. Garotas de programa seminuas vendendo o peixe na madrugada e disputando os pontos mais caros entre si. Noite de Natal. Luzinhas piscando nas janelas. Dolores. Tempestade. Tudo areia. Não se iluda.

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Lecy Pereira Sousa

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