segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Dona Iraci com o pé na cova

Dona Iraci! Tava sumida essa bruaca dos infernos! Achei que tivesse até morrido. Mas vaso ruim não quebra. Quer dizer, até quebra, mas emenda. Dona Iraci já se quebrou toda em seus tombos, mas resiste, a infeliz. Dona Iraci, porém, está condoída. Condoída porque está com dor física - sente um dos parafusos do quadril latejar - e não condoída no sentido de se lamentar pelos outros, nem quando a ocasião pede. É que ela está num velório, de pretinho básico e tudo. Parece uma galinha de macumba com aquela roupa fedendo a naftalina, já justa demais para seus culotes generosos. Não se manca, essa mulher! Quer dizer, até manca, mas por conta das quedas.
Dona Iraci não liga para o que vão dizer de seu vestido preto que mandou costurar há 20 anos e que não lhe caía bem nem quando era novo. Ela também não foi no cemitério chorar a morta, dona Valdivina, uma vizinha que já comeu o pão que o diabo amassou e temperou com dona Iraci como ajudante. São incontáveis as fofocas que espalhou para prejudicar dona Valdivina. A mulher morreu do coração, que foi ficando fraco com tanto susto e vergonha. Pensando bem, dona Iraci tem parte nessa morte. É uma maledicente psicopata, uma serial killer de reputações. Mas já que dona Valdivina empacotou, dona Iraci é que não ia passar esse recibo. Foi lá, falsa, chorar a defunta que odiava.
Claro que esse estorvo em forma de mulher não esteve no velório apenas para limpar sua barra. O que ela queria mesmo era reparar nos "convidados" de dona Valdivina. Falar que Suzana engordou, que Roberta está barriguda e ninguém sabe quem é o pai, que Sandoval está ficando careca, que Ernesto continua a ser enganado pela safada da Priscila. È o que ela faz melhor: desancar todo ser vivente que tem o infortúnio de ser detectado por sua língua indócil.
Depois de fuxicar por horas, encher o pandu de salgadinhos educadamente servidos e de rir estrondosamente de piadinhas na porta da sala do velório, chegou o momento do enterro. Já na prece final, antes de fecharem o caixão, dona Iraci não conteve um "ah, tá" quando o pastor disse palavras de elogio à pobre Valdivina. Isso deixou todos indignados e propensos a uma vingança em campo santo.
O cortejo saiu e dona Iraci foi atrás, parando aqui e ali para ler as plaquinhas dos túmulos e soltar comentários inconvenientes: "Nossa, mas esse aqui era velho demais. Tinha mais é que morrer mesmo". Nesse dia triste para tantos, dona Iraci não fechou sua matraca de maldades um minuto sequer. Como diz o ditado, acabou cavando a própria sepultura. Não, não se animem. A megera continua viva, vivinha da silva, só que com mais um tombo no currículo.
Logo após o sepultamento de dona Valdivina, dona Iraci, no momento em que tentava arrancar de um túmulo o porta-retrato de prata que estava colado na lápide com a foto da pessoa que ali descansava, levou um empurrão traiçoeiro e encontrou seu destino. O mistério permanece ainda hoje, quando até a missa de sétimo dia de dona Valdivina já foi celebrada. Fato é que alguém deu um safanão na velha e jogou-a de borco dentro de uma cova aberta para o enterro das 6 da tarde. E dona Iraci caiu! Caiu de novo! A mulher mergulhou o focinho em terra adubada e ali ficou, estatelada, comendo grama pela raiz. Foi resgatada, com alguma resistência, pelo coveiro. A resistência, no caso, foi do coveiro, que pensou várias vezes que o melhor mesmo seria cobrir logo aquele estropício com sete palmos de terra.
Rogério Borges  

3 comentários:

Suziley disse...

A dona Iraci era (é, pois vive a infeliz...hehe) um terror, heim?!! Adorei a crônica do Rogério Borges, Jakeline. Criativa e com graça. Parabéns! Uma ótima semana, beijos :)

Jakeline Magna disse...

Su, a Dona Iraci é um demônio.... haHAHAHA

mfc disse...

Cá se fazem... cá se pagam!!
E assim é que está certo!